Esportes, Cultura e Lazer

Dentre as ações combinadas nesta linha de atuação, destacamos especialmente a realização de atividades lúdicas. O mundo da criança é o brincar, e essa maneira se prova a melhor para um crescimento satisfatório e edificante.

Temos mais de 30 projetos nesse escopo, executados em parceria com a secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Recreação da cidade de São Paulo. Ao todo, já realizamos mais de 40.000 atendimentos.

Nosso principal destaque aqui, no entanto, é a importância do brincar no desenvolvimento humano.

O Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, estabelece em seu artigo 71 que “a criança e o adolescente têm direito à informação, cultura, lazer, esportes, diversões, espetáculos, e serviços que respeitem sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento”.

Brincar na infância não é um privilégio; é um direito, uma necessidade constitutiva. O brincar cria um espaço seguro para a experimentação, para o conhecimento do mundo e para a invenção da própria subjetividade.

Brincadeira é a linguagem da infância. É a maneira que a criança possui para interagir sadiamente com o mundo que a rodeia: por meio do lúdico, começa a perceber o mundo, testar suas habilidades, experimentar sua função social, aprender regras, colher resultados das ações, aprender sobre riscos e desenvolver conceitos. A brincadeira é um espaço de experimentação sem riscos; ela nos prepara para a vida adulta. Ali, temos o direito de experimentar, de errar, de fazer de conta. Assim aprendemos e nos apropriamos do mundo.

É sempre por meio do lúdico que devemos interagir com a criança, escutá-la, valorizar suas opiniões. Ao brincar, ela sai da passividade e passa ser um sujeito criador, agente do seu destino.

Nosso trabalho é viabilizar a brincadeira, garantir as condições necessárias para que ocorra. Outorgar a segurança e o espaço (dos quais a criança muitas vezes não dispõe em seu dia a dia) para que desenvolvam suas brincadeiras e se apropriem do mundo ao seu redor.

O objetivo do Ato Cidadão, aqui, é apresentar uma realidade diferente, tanto para os filhos quanto para os pais. Nela, é possível reconstruir laços familiares muitas vezes debilitados, dar palavra à criança, fazê-la aprender a ouvir e devolvê-la a seu universo lúdico.

Também convidamos os pais visitar essa nova realidade; agora, são eles os visitantes, tendo que se adaptar aos novos códigos. Aqui não prevalece a questão da sobrevivência, que domina e ordena o universo adulto. Nesse novo cenário, pais e filhos podem se reencontrar. Enxergam-se de uma nova maneira e abrem-se para a possibilidade de criar um vínculo diferente.

Nossa equipe acompanha pais e filhos em cada passo dessa transformação. Ao avaliar a situação de muitas famílias vulneráveis trabalhadas, entendemos que não existem culpados, mas sim vítimas da violência social. Trabalhando juntos, melhoramos a qualidade de vida das crianças que moram em cortiços, habitações coletivas e prédios invadidos do Centro de São Paulo.

 

O lugar da criança

Dentro da preocupante realidade com a qual lidamos, fica a indagação: em que lugar fica a criança?

Para um crescimento saudável, é preciso ter tranquilidade. Um contexto suficientemente estável, que permeie seu desenvolvimento sem grandes transformações. Uma referência perene enquanto tudo muda em seu corpo e mente. Que a faça sentir protegida e cuidada em casa, um porto seguro para o qual pode voltar quando sai para ser livre e conhecer o mundo.

Infelizmente, as crianças que atendemos no centro de São Paulo não crescem dentro de um ambiente saudável. Vivem suas vidas em meio às preocupações dos pais, sempre presos à questão da sobrevivência. Sem certezas sobre o futuro (e, principalmente, assombradas pela perspectiva de morar na rua), encontram-se em segundo plano; os adultos sempre têm problemas muito mais urgentes a resolver.

Nesse cenário, as crianças não são devidamente estimuladas. Suas palavras não são valorizadas dentro do seu ambiente familiar. Tornam-se sujeitos passivos, adaptados forçadamente ao caos em que vivem.

As condições físicas em que passam seus dias também não são satisfatórias: são espaços pequeníssimos em condições miseráveis de sanidade e segurança. Lugares nada aptos para um desenvolvimento saudável. Mais uma vez, acabam se adaptando a essas tristes condições de vida, impotentes frente a tanta marginalidade.

A violência que essas crianças testemunham (e, muitas vezes, da qual são vítimas) é outro fator preocupante. Na situação extrema em que vivem, a violência é naturalizada. Ao se tornarem espectadores costumeiros da brutalidade, aprendem a encarar esse tipo de situação como normal.

Nosso trabalho é viabilizar a brincadeira; criar condições de segurança e o espaço, muitas vezes não disponíveis anteriormente, para que a criança se desenvolva de forma natural.

Essa linha de atuação apresenta uma realidade diferente, tanto para filhos quanto para pais. Reconstruímos esse laço debilitado, dando-lhes voz e ensinando a ouvir. Devolvendo o universo lúdico, tão fundamental para o desenvolvimento sadio.